EBD | Apocalipse 11.1-13 – O templo medido e as duas testemunhas

Como Deus guarda a sua igreja no meio do sofrimento

Uma pausa antes da última trombeta

Apocalipse 11.1-13 ensina que a igreja pertence a Deus e está protegida por Ele, mesmo quando o mundo a pisa e chega a matá-la. O texto fica num intervalo: a sexta trombeta já soou e a sétima ainda vai soar. Antes do juízo final, Deus para a cena e mostra à igreja qual é o lugar dela nesses dias.

Logo antes, em Apocalipse 10.8-10, João comeu um livrinho doce na boca e amargo no estômago. O entendimento exegético que seguimos aqui liga esse sabor ao capítulo 11. A doçura está no versículo 1, quando Deus mede o santuário e guarda o seu povo. O amargor está no versículo 2, quando ele permite que as nações pisem esse povo por um tempo. As duas testemunhas, nos versículos 3 a 13, vivem as duas coisas ao mesmo tempo.

A vara de medir: Deus marca o que é seu

No versículo 1, medir significa possuir e proteger. João recebe um caniço, uma vara leve e reta de uns três metros, e repete um gesto de Ezequiel 40-42. Ali, a medição do templo mostrava que Deus estava presente com o seu povo e que esse povo lhe pertencia. Em Zacarias 2.1-5, a linha de medir anuncia a proteção de Jerusalém.
João mede três coisas: o santuário, o altar e os que nele adoram. A palavra grega para santuário, naos, é, em todo o Apocalipse, o templo celestial, e no Novo Testamento o templo de Deus é a igreja: “o santuário de Deus, que sois vós” (1Co 3.16,17; cf. 2Co 6.16; 1Pe 2.5). Concluímos que a figura aponta sobretudo para os santos do tempo do fim e, em segundo plano, para a igreja de todas as épocas.

A proteção, porém, não é contra o sofrimento físico. O próprio livro diz que muitos serão mortos (6.9-11) e que a besta vencerá os santos (13.7). Deus guarda o seu povo da contaminação e da perda da fé. É a mesma lógica do selo na testa em 7.3,4.

O pátio de fora: pisados, mas não perdidos

O versículo 2 mostra o outro lado: o mesmo povo que Deus guarda será entregue por um tempo nas mãos das nações. João recebe a ordem de “lançar fora” o pátio externo, um verbo forte, e de não medi-lo, “porque foi dado aos gentios”. No templo de Herodes, os gentios só podiam entrar nesse pátio, e uma placa ameaçava de morte quem passasse dele.

Estudioso não lêem o pátio como gente de fora da igreja. Nos templos de Salomão, de Ezequiel e de Herodes, o pátio externo também era solo sagrado. Então o santuário, o pátio e a cidade santa são três retratos do mesmo povo de Deus: guardado por dentro e maltratado por fora.

O verbo “pisar” descreve um exército que invade uma cidade e atropela tudo. João ecoa Daniel 8.11-14 e Zacarias 12.3, como Jesus em Lucas 21.24. Assim como o Filho foi entregue nas mãos dos pecadores (Mc 9.31), a igreja também é entregue, sem deixar de ser de Deus.

Quarenta e dois meses: um tempo curto nas mãos de Deus

Os 42 meses são um tempo de perseguição com prazo marcado por Deus. O Apocalipse fala desse período de três formas: 42 meses (11.2; 13.5), 1.260 dias (11.3; 12.6) e “um tempo, tempos e metade de um tempo” (12.14). Todas vêm dos três anos e meio de Daniel 7.25 e 12.7.

O número também lembra os três anos e meio de seca no tempo de Elias (Lc 4.25; Tg 5.17) e os 42 acampamentos de Israel no deserto (Nm 33). Nas duas histórias, é um tempo de prova e juízo. Muitos teólogos entendem que o texto aponta para a grande tribulação no fim da história, mas com uma mensagem para a igreja de hoje: Deus limita o mal. “Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém seria salvo” (Mt 24.22). E, como a mulher de 12.6,14, o povo de Deus é sustentado durante todo esse tempo.

Quem são as duas testemunhas?

Podemos entender que são duas coisas ao mesmo tempo: dois profetas reais do fim da história e um retrato da igreja que testemunha. A identidade delas é muito discutida. Os pais da igreja pensavam em Enoque e Elias, e outros sugeriram Pedro e Paulo. Como a besta de 11.7 e 13.1 parece ser uma pessoa, o Anticristo, é provável que as testemunhas também sejam. Elas virão “no espírito e no poder” de Moisés e Elias, como João Batista (Lc 1.17), sem serem eles mesmos.

Ao mesmo tempo, os dois candelabros lembram as igrejas de 1.20, e o mundo inteiro as vê. São duas porque a Lei pedia duas testemunhas (Dt 19.15): elas comprovam a culpa do mundo diante de Deus. O pano de saco é um chamado ao arrependimento, como em Nínive. As oliveiras vêm de Zacarias 4: “não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito”. O fogo que sai da boca delas é a Palavra que julga (Jr 5.14), e as pragas repetem Elias e Moisés.

Mortas na praça, levantadas por Deus

O testemunho delas termina como o de Jesus: morte, humilhação e ressurreição. A besta só as ataca quando elas “concluírem seu testemunho” (11.7), pois Deus marca a hora. Seus corpos ficam sem sepultura na “grande cidade”, chamada Sodoma e Egito, “onde também seu Senhor foi crucificado”. O mundo faz festa e troca presentes, e essa alegria dura só três dias e meio!

Então “um espírito de vida, vindo de Deus, entrou neles”, como nos ossos secos de Ezequiel 37.10. Uma voz forte diz “Subi vós para cá”, e elas sobem numa nuvem diante dos inimigos. Segue-se um grande terremoto: cai a décima parte da cidade e morrem sete mil, o inverso dos sete mil fiéis de Elias (1Rs 19.18). Os demais “deram glória ao Deus do céu” (11.13). Compreendemos isso como arrependimento verdadeiro, a única conversão em massa do livro, embora não a salvação de todos.

O que este texto pede de nós?

Este texto pede que a igreja testemunhe com fidelidade, sabendo que o sofrimento por Cristo é caminho de vitória. Para a nossa vida, o comentário deixa quatro lições:

  • Pertencemos a Deus. Ele mediu o seu santuário, e nenhuma perseguição tira a igreja das mãos dele.
  • O sofrimento tem prazo. Os 42 meses e os três dias e meio são curtos e estão sob o controle de Deus.
  • Testemunhar é tomar a cruz. Seguir Jesus pode custar caro (Mc 8.34), e participar dos seus sofrimentos é comunhão com Ele (Fp 3.10; 1Pe 4.13).
  • Deus usa o testemunho fiel para salvar. “O sangue dos mártires é a semente da igreja”, e o juízo também é um chamado ao arrependimento.

O resumo de tudo está em Apocalipse 12.11: “Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho e, mesmo diante da morte, não amaram a própria vida.”